IstoÉ – Edição 1990 – 19/12/2007

Acusado de isolacionismo e de maquiar dados sobre a Amazônia, o País admite negociar créditos de carbono, prova seus números e desmente relatório dos EUA

Por LUCIANA SGARBI

FIRDIA LISNAWATI/AP/IMAGE PLUS
NÃO OFICIAL Manifestantes de ONGs fazem ato contra a deterioração do clima pelos países ricos

Chama-se Geni uma das mais famosas personagens criadas por Chico Buarque. Quando precisam dela, correm a bajulá-la e imploram-lhe favores; quando não precisam, a coisa menos poluída que lhe atiram são pedras. Na 13ª Conferência da Convenção de Mudança Climática das Nações Unidas, que reuniu representantes de 190 países na ilha indonésia de Bali, autoridades governamentais e ONGs de diversas nações elegeram a Amazônia como a Geni da deterioração do clima do planeta – confessaram precisar dela para que o mundo sobreviva, imploraram-lhe por preservação e menos emissão de CO2, mas, ao mesmo tempo, atacaram-na com estatísticas um tanto poluídas sobre a sua devastação. Na quarta-feira 12 o ministro brasileiro das Relações Exteriores, Celso Amorim, decidiu partir para o contraataque e recolocou, no colo de cada um, os sapos que vinha engolindo ao longo de dez dias. O maior deles pulou de volta para um brejo de dimensões amazônicas, que é o relatório dos EUA: “Cinqüenta e cinco por cento da Amazônia será destruída até 2030, a floresta será uma grande savana no futuro.” O ministro rebateu, foi aplaudido e não houve voz discordante.

Amorim admitiu que a redução de CO2 no Brasil ainda está aquém das expectativas (na verdade, muito aquém para uma floresta que em meio século perdeu 700 mil quilômetros quadrados de seu verde), mas enumerou: “O desmatamento caiu pelo terceiro ano consecutivo e atingiu o menor índice já registrado, de 11.224 quilômetros quadrados. Sabemos que isso ainda é pouco, mas pelo menos estamos investindo em energias limpas e programas sustentáveis, enquanto há países industrializados que nem sequer ratificaram o Protocolo de Kyoto” – leia-se EUA. Assim como ele, também a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, foi acusada por ONGs internacionais de ter exibido em Bali dados maquiados sobre a situação da devastação e emissão de CO2. No Brasil saiu em sua defesa o ministro em exercício João Paulo Capobianco: “Como a floresta Amazônia tem quatro milhões de quilômetros quadrados, mesmo que devastássemos 30 mil quilômetros por ano não chegaríamos aos dois milhões preconizados pelos EUA para 2.030.” Pode-se alegar que Capobianco talvez seja parcial porque integra o governo, mas pesa a favor de sua isenção o fato de ele próprio concordar em que ainda há muitos problemas – só que não na proporção apresentada pelo relatório americano. “É verdade que o sistema de monitoramento registra tendência de aumento no desmatamento nos últimos quatro meses”, diz Capobianco. “Mas deve-se isso ao longo período de seca e a subida dos preços das commodities agrícolas, sobretudo da soja e da carne.” Enquanto o ministro interino apagava os incêndios em Brasília, em Bali a própria titular decidiu trocar o discurso técnico pelo político – e neutralizou as acusações de que se mantinha numa posição isolacionista.

Aí veio a surpresa. O Brasil criou um fato novo quando Marina e Amorim anunciaram que “admitem negociar créditos de carbono” pela conservação da Amazônia na tentativa de conter o aquecimento global, mas ressalvando que “essa medida fica condicionada a revisões periódicas”. Tenta-se, assim, fechar o guichê de negócios de créditos de carbono através do qual países florestais assumiam a responsabilidade pela redução de CO2 enquanto algumas nações altamente industrializadas continuavam a poluir livremente. “Precisamos tomar cuidado com o supermercado do carbono”, alertou o coordenador do Greenpeace na Amazônia, Paulo Adario. “Estamos nos dispondo a ter metas internas e verificáveis”, disse Marina. “O Brasil está pronto para aprimorar seus programas para reduzir emissões de forma mensurável e aberta à revisão universal periódica”, arrematou Amorim. A proposta consiste na criação do Fundo de Proteção e Conservação da Amazônia Brasileira, que aumentará os recursos de combate ao desmatamento sempre que o País provar que reduziu a taxa de devastação da floresta abaixo de um nível – até 2012 esse nível será de 19,5 mil quilômetros quadrados. Entusiasmado, o ministro de Cooperação Internacional da Noruega, Erik Solheim, anunciou que destinará anualmente cerca de US$ 540 milhões para preservar florestas tropicais. Bastante aplaudido, o entusiasmo de Solheim subiu e involuntariamente ele foi politicamente incorreto ao elogiar o Brasil: “A proposta brasileira mata vários pássaros com uma pedrada só.” Amorim, de imediato, corrigiu: “Ressuscita vários pássaros.”

ANDRÉ DUSEK/AG. ISTOÉ
“VAMOS REDUZIR A EMISSÃO DE POLUENTES DE FORMA MENSURÁVEL”
Celso Amorim, ministro das Relações Exteriores

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